segunda-feira, maio 04, 2009

Dor adormecida

Aveiro/2009

Caminhava eu
a passos de vida arrastada
em tão longa viagem
após uma breve pausa,
alonguei os olhos
perdidos no marasmo
translúcido do vazio
olhos rasos de água
um arremedo de vida apagada
perdendo o brilho,
ar de modéstia encantada
arquitectar planos soberbos
faculdade de decidir ambiguidades
lágrima de azul orvalhada
canção em si bemol
árvore de vida imortal
estandarte da revolta
passas a correr
envolto em neblina
no caos do trânsito...

... presságios, premonições que
no auge do desespero
aurora de vida, espírito ausente
baixando do céu à terra
balancé de uma vida
sonho e devaneio
rosto banhado de lágrimas
águas de rosas desabrochadas...

quarta-feira, abril 29, 2009

Parede fria

Aveiro/2009

A tarde está cinzenta
vazia, nua e gelada...

uma mulher caminha
passos cambaleantes
de alma penada
perdida no denso nevoeiro
por entre tumbas anónimas
o rosto magro está triste
de olhos sem viço
o coração negro, vazio
passa por mim sem me ver...

uma luz rasga as trevas
cuidei ver teus olhos verdes
mas é apenas um carro perdido
na densa névoa
do cemitério à meia-noite
depois de tudo sepultado no silêncio
nas fragilidades
das coisas humanas
alucinação de louca
que tudo deseja e nada tem
senão a cruel realidade...

segunda-feira, abril 20, 2009

Bicho de conta...

Ria de Aveiro/2009

Pelos fios dos meus pensamentos
escorrendo raízes traidoras
de desespero incompreensível
de interrogações abismais
que todos os dias
- me assustam
- me desesperam
cheias de desgosto
pelo futuro desconhecido
como podemos nós
ultrapassar nossos sentimentos
tão diferentes
- no sentir
- no pensar
- no estar
quando as circunstâncias
e os acontecimentos
tomam lugar a outra vida
porque se antes
brandimos o chicote,
agora encolhemo-nos
como bicho de conta...

A partida na hora da esperança
e a coragem da chegada
é qualquer coisa dantesca
qualquer coisa de vertigem
face ao abismo...

A vida nos mostra
em qualquer circunstância
nas suas infinitas facetas
e nas suas tragédias
mais insuspeitáveis,
os que nada acharam
quando abriram as mãos
com que agarravam
tão avidamente essa vida
que os traiu
e abandonou...

sexta-feira, abril 17, 2009

De sombra e morte...

Bombarral/2008

Sombras crepusculares
alastram pelos vastos arvoredos
escurecidos e emudecidos,
cai a noite silenciosa
finda o dia agitado
momentos devastadores
em que a beleza luminosa
é devorada pelas sombras da morte...

Sinto a brisa que vem até mim
de ti, fresca e serena
envolvendo o meu corpo frio
anil do céu e o fresco
vento do Norte
que se esvai na noite escura
e no cheiro a terra molhada
das minhas lágrimas salgadas
odor subtil de rosas
em minha terra plantadas...

As areias escaldantes
e o calor do sol, descobertos
nos oásis do meu corpo...

Sinto o bater do meu coração
mesmo não batendo por nada
e o desejo da minha alma
quando tudo afinal acabou
na brisa dos teus beijos
em terra molhada
com meu sangue
e o orvalho
das minhas lágrimas...

quinta-feira, abril 16, 2009

Fantasmas na noite


Foto de 2008

Grito encoberto
força estranha
iluminando
as curvas do caminho
sol da minha vida
olhando as feridas
do meu espírito
alagado no rio
de águas turvas
passando pelos teus
cabelos brancos
de saudades terrenas,
e no doce sabor
dos teus lábios
de sangue quente
correndo pelas minhas veias...

Espírito das brumas
cujo fado sabes de cor
e a vida tu prevês,
alcantiladas são as tuas lágrimas
de todos os dias,
efemérides atribuladas
de passos ressoados
pela calçada incerta
no breu da noite
de fantasma vestida...

quarta-feira, abril 15, 2009

O espaço tempo


Amigos...

Como há estrelas no céu
assim rosas no teu coração
os espinhos do teu espírito
dilaceram as trevas do meu...

...aviões a jacto
povoam teus pensamentos
que sobem aos píncaros
do Evereste e dão a volta
pela corrente orbital
chegados à cintura de asteróides,
investigas buracos negros,
embarcando num satélite desactivado
desces vertiginosamente
caindo no meu jardim
desamparado e gritando
para o mundo hostil e ingrato
que não gostas de mudanças
nem do que é diferente
estás num sonho amansado
e estacas embevecido
de recordações...

...voltas ao ninho quente e doce
donde nunca deverias ter saído
e depois desta aventura
adormeces novamente...